2 de nov. de 2017

MINHA VÓ FOI PEGA A LAÇO


MINHA VÓ FOI PEGA A LAÇO
Pode parecer estranho, mas já ouvi tantas vezes esta afirmação que já até me acostumei a ela. Em quase todos os lugares onde chego alguém vem logo afirmando isso. É como uma senha para se aproximar de mim ou tentar criar um elo de comunicação comigo. Quase sempre fico sem ter o que dizer à pessoa que chega dessa maneira. É que eu acho bem estranho que alguém use este recurso de forma consciente acreditando que é algo digno ter uma avó que foi pega a laço por quem quer que seja.
- Você sabia que eu também tenho um pezinho na aldeia? – ele diz.
- Todo brasileiro legítimo – tirando os que são filhos de pais estrangeiros que moram no Brasil – tem um pé na aldeia e outro na senzala – eu digo brincando.
- Eu tenho sangue índio na minha veia porque meu pai conta que sua mãe, minha avó, era uma “bugre” legítima – ele diz tentando me causar reação.
- Verdade? – ironizo para descontrair.
- Ele diz que meu avô era um desbravador do sertão e que um dia topou com uma “tribo” selvagem lá por Goiás.
- Eita. Que história interessante – falo arregalando os olhos.
- Pois é. Meu pai disse que meu avô contou que minha avó era muito linda e que olhou bem nos seus olhos antes de correr. Meu avô ficou enfeitiçado por ela. Imediatamente ele tirou o laço do lombo do cavalo em que estava montado e a laçou.
- Que incrível – digo.
- Ela, no começo, esperneou, gritou, chamou pelos outros “índios”, mas ninguém voltou e meu avô a levou para casa e com ela teve nove filhos.
- Uau!
- Meu avô contou para meu pai que vovó era baixinha, tinha cabelos longos bem pretinhos e olhos puxadinhos. Ela ficava horas sentadas na frente de casa penteando os cabelos e com os olhos perdidos no horizonte.
- Ela devia estar cantando a saudade de sua casa – disse para quebrar o clima sombrio.
- Meu avô dizia que ela ficou a vida inteira aguardando que sua “tribo” viesse resgatá-la. Nunca ninguém apareceu. Ela, no entanto, foi muito feliz ao lado do meu avô.
Minha atenção se fixou nesta última frase enquanto meu novo amigo se despedia dizendo que tinha sido um prazer me conhecer. Cumprimenta-me, me olha de cima a baixo, vira as costas e vai embora.
Apesar de ser comum esta situação nunca deixo de pensar nela. Acho esquisito quando alguém se orgulha de ter tido uma avó que foi escravizada por um homem que a usou durante toda uma vida e a obrigou a gestar filhos que provavelmente não queria. Penso que a maioria das pessoas não se dá conta de que esta narrativa é repetida tantas vezes e de forma poética para esconder uma dor que devia morar dentro de todos os brasileiros: somos uma nação parida à força. Foi assim com os primeiros indígenas forçados a receber uma gente que se impôs pela crueldade e pela ambição; uma gente que tinha olhares lascivos contra os corpos nus – e sagrados – das mulheres nativas. Foi assim com os negros trazidos acorrentados nos porões de navios para serem escravos de pessoas que se sentiam superiores apenas por conta da cor de sua pele; as mulheres eram usadas como domésticas e como amantes gerando “brasileiros” que eram desqualificados porque cresciam sem pai.

O Brasil foi “inventado” a partir das dores de suas mulheres e é importante não esquecermos esta história para podermos olhar de frente para nosso passado e aprendermos com ele. O Brasil precisa se reconciliar com sua história; aceitar que foi “construído” sobre um cemitério. Apenas dessa forma saberemos lidar com criatividade sobre a verdadeira história de como “minha avó foi pega a laço”.

13 de out. de 2017

APENAS FILHOS

Por ocasião do dia da nossa "Mãe Preta" lembrei deste texto que escrevi e que faz parte da série "Das Coisas que Aprendi". Boa leitura!


APENAS FILHOS
Aprendi com os parentes que somos filhos da terra. Ser filho é ter uma atitude cuidadosa com a mãe que nos enche de dádivas e alegrias. Nos dá o alimento que faz o corpo se nutrir com sua energia cósmica. Nos dá o remédio que cura o corpo das enfermidades que o assola quando quebra a harmonia reinante. Nos dá o aroma que perfuma nosso dia a dia. Nos brinda com o nascer e o por do sol, espetáculos que embriagam os olhos.
A mãe não esquece uma única necessidade nossa e nos preenche com seus círculos de saberes. Nada escapa ao seu brio maternal que não abre mão de ensinar, punir, maravilhar, entristecer, alegrar, alimentar, enaltecer. Tudo é dado de graça e só exige que sejamos agradecidos e harmonizados com o universo.
O que é mais surpreendente é que a gente não precisa ter consciência disso. Assim como a Terra-Mãe se dá gratuitamente, nós também não precisamos ficar escravos de nada. Temos apenas que viver as dádivas como partes de nosso processo pessoal. A consciência nos obriga a criar conceituações a respeito do ser. E o ser é.
Somos apenas filhos. Filhos não precisam justificar sua filiação aos pais. Ou se é filho ou não se é filho. Ponto final. Com a Mãe Terra é também assim. Somos filhos, apenas filhos. Ser filho significa ter um elo de ligação que prende como uma linha invisível com a qual se amarram as dádivas e graças. Basta isso.
Ainda criança meu pai me ensinou a conversar com a madeira. Ele era carpinteiro dos bons. Um maestro que sabia conduzir pregos e parafusos para seus lugares certos. O resultado era um conjunto de móveis bonitos que decoravam apartamentos e casas de diferentes lugares. Ele me ensinou a martelar o prego sem medo de machucar os dedos. Tinha o jeito certo de segurar o martelo e conduzi-lo à cabeça do prego. Era algo harmonioso. Ele dizia que a pessoa que segura a ferramenta tem que se sentir parte dela. Ele era bom nisso. Muitas vezes eu o observei absorto na sua tarefa artesã medindo cada milímetro da madeira para não haver erros. “A pessoa não compra um objeto apenas pela beleza externa. Ela sente a energia de quem o confeccionou”, ele dizia sem pestanejar.

Tudo isso era para me mostrar que o ofício bem praticado não nos torna ricos de bens materiais, mas é uma maneira de retornar à Mãe de Todos os talentos que ela nos proporcionou. Saber ser um bom profissional, um estudante aplicado, um esposo ou esposa dedicada, um filho ou filha consciente é uma maneira simples de nos colocarmos no coração da deusa-mãe. O importante é não esquecer nunca que somos apenas filhos de uma mãe dadivosa.

28 de set. de 2017

Religar-se: uma necessidade para os desligados.

Tendo estudado em escola religiosa me foram passados os ensinamentos que a dita religião considerava fundamental para tornar-me um ser humano melhor. Entre estes ensinamentos estava um que dizia que a humanidade foi vitimada por um pecado original que carregaria consigo até o fim dos tempos. O mal ocasionado por uma falha de caráter de um certo homem teria nos condenado a uma eterna busca pelo paraíso perdido. Mas dizia que não era para ficar tão mortificado por causa disso, pois o Criador não abandonaria suas criaturas e enviaria um redentor para fazer um novo pacto com a humanidade decrépita. Este salvador veio, andou por esta terra garantindo que era o filho do Criador, mas a maldade do homem o condenou a morte na cruz. No entanto, para que sua obra não fosse jamais esquecida e seus filhos, órfãos, deixou seus seguidores e uma instituição como legítima representante dos dons da divindade. Aprendi isso quando menino. Vivi isso quando jovem. Busquei compreensão quando adulto. Agora, caminhando para a velhice, descobri que as coisas não são bem assim. Fiz isso retornando para a infância quando se é livre da prisão que a cultura dominante e seus conceitos e preconceitos nos impõem. Um dia um padre me disse: “fora da igreja não há salvação”. Eu tinha onze anos de idade e alguma pureza interior. Acreditei, talvez por isso, nas palavras do homem santo. Homem feito, descobri que dentro dela também não há. Depois de ter caminhado por muitas trilhas voltei para a aldeia de meus pais e lá fui observar como viviam meus parentes. O pecado original não os afetou. Eles nunca precisaram de religião. Não se sentem culpados e ainda estão vivendo a harmonia do paraíso. Foi o que descobri. Descobri também que pecado e paraíso são frutos da cultura. Religião também o é. Ela serve para os que se deixam amedrontar por um fantasma chamado pecado e não percebem que o grande mal da humanidade foi distanciar-se de sua essência natural. No momento em que o ser humano colocou-se acima das outras coisas criadas decretou seu desligamento da teia da vida. Depois disso foi criando instituições para amenizar sua culpa correndo atrás de uma divindade que ele mesmo criou conforme sua imagem e semelhança. Embora não seja muito comum pensar nisso, creio que a redenção que o salvador trouxe foi relegada a umas poucas palavras esquecidas em partes poucas vezes lidas dos evangelhos. Entendo que quem precisa de religação é justamente quem está desconectado da harmonia do universo. Quem se sente completo e ligado, não precisa religar-se . Talvez tenha sido essa a novidade que os povos ancestrais tenham ensinado ao ocidente desde sempre. Foram eles que nos ensinaram que é preciso estar nu diante do universo para que vivamos sua essência. Este é um apelo a todos nós que tentamos complexificar a vida. Só assim podemos ser filhos.  

25 de set. de 2017

Passagem por Fortaleza - Dia 23/09

Estive em Fortaleza para participar de um evento educativo como oficineiro. Ministrei um pequeno curso para cerca de 80 educadores nos dois períodos do sábado, dia 23. Abaixo seguem os registros desses encontros que foram muito ricos e prazerosos. Gratidão à Edições Paulinas que bancou esta minha participação.






























Escola Castanheiras - Alphaville/SP - Dia 20/09

Já faz algum tempo que visito a Escola Castanheiras e faço conversa com os estudantes da instituição. Eles leem vários livros meus e a biblioteca tem um acervo maravilhoso da literatura indígena. Este ano passei lá no último dia 20/9. Foi lindo demais! Parabéns à escola que prepara muito bem seus estudantes para o respeito à diversidade!!





















































MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...