5 de nov. de 2012

Jovens da aldeia Te’ýkuê, em Caarapó (MS), realizam fórum para discutir combate a drogas e violência


Foto: CR de Dourados

Aproximadamente 350 jovens e adolescentes indígenas participaram do Fórum da Juventude Guarani Kaiowá da aldeia Te’ýkuê, no município de Caarapó (MS), para discutir o tema “O compromisso dos jovens no combate às drogas e à violência”. O evento aconteceu no dia 30 de outubro.
  
Durante o período da manhã, foi realizada uma apresentação cultural e uma palestra com o professor Eliel Benites sobre a importância de se fazer o enfretamento às drogas, aliando a ousadia da juventude ao conhecimento dos mais antigos. O professor Eliel ressaltou também que os mais velhos precisam aprender a ouvir os mais jovens, saber quem eles são e como enxergam a realidade dentro da aldeia. Em seguida, os participantes do fórum foram divididos em vários grupos para discutir e propor alternativas de enfrentamento às drogas.

Já à tarde, foi formada uma mesa composta por lideranças tradicionais religiosas e políticas, um agente de saúde, um estudante, o vereador indígena eleito no último pleito e o atual presidente da Câmara Municipal (eleito prefeito para o próximo ano). Posteriormente, foram promovidas apresentações culturais, entre elas a Orquestra Guarani Kaiowá, e realizados sorteios. Na sequência, os relatores dos grupos apresentaram as propostas surgidas nas discussões da manhã. As que mais se destacaram foram: criação de espaços de esporte e lazer para os jovens; oferta de cursos profissionalizantes, de artesanato, arte, música instrumental e dança; criação de um centro de recuperação de dependentes químicos; além de ações que incentivem maior diálogo entre os jovens e suas famílias.

Foto: CR de Dourados

A organização do fórum envolveu estudantes e funcionários da Escola Municipal Indígena Ñandejara e da Escola Estadual Yvy Poty, do CRAS indígena, assim como os Agentes Comunitários de Saúde e as lideranças tradicionais. Contou ainda com o apoio da Coordenação Regional da Funai de Dourados.

Durante os dias de pesagem de crianças realizada pelos agentes de saúde nas 15 áreas da aldeia Te’ýikuê, ocorreu a pré-fase do fórum, com palestras proferidas por professores e estudantes, visando à preparação dos jovens e adolescentes que iriam participar do fórum.

Com informações da Coordenação Regional da Funai em Dourados/MS

2 de nov. de 2012

Brasil, mostra tua cara! – Cristino Wapichana


Éramos mais de 1.000 povos indígenas nestes territórios que hoje se denomina Brasil.  É verdade  que tínhamos nossas briguinhas internas se justa ou não, usávamos as armas com efeitos parecidos e alguns povos comiam os guerreiros capturados para fortalecer o espírito coletivo daquele povo.  Mas o mais interessante era que o guerreiro “banquete” se dava por satisfeito em ser servido, pois assim como os “inimigos” se alimentaria dele, o seu povo também já havia comido parte daquele povo que agora fazia festa. Detalhe, não se comia medrosos, covardes e se o guerreiro fugisse e retornasse para sua aldeia, era morto ou banido pelos seus.  Era desonra.    

Mas chegou a pólvora, a ganância, a doença, as correntes, a cana de açúcar, o café, o cavalo, o boio, o chicote, a escrita, a moeda e nomearam este lugar, dando-lhe o nome de Brasil.  Ai vieram mais coisas: Monarquia com Dom João VI e seus dons Pedro I e II, e um deles ate bradou: Independência o Morte! Ambas deram luz a democracia. Neste período, já éramos metade dos povos indígenas de 1.500.  Mas o importante foi o avanço que o País deu e ai é que apareceram mais coisas: Vereadores, prefeitos, deputados estaduais e Federais, governadores e presidentes.  
Mas a democracia tomou um golpe duro dos milicos que decidiram alavancar de vez trazendo a “Ordem” e o “Progresso” e indígena não se encaixava na palavra e nem no sentido da palavra progresso.  Neste período as estradas cortavam o País e eliminando florestas, serrados com toda sua biodiversidade, povos indígenas inteiros foram massacrados, dominados e expulsos e excluídos da sociedade brasileira a tiros e bombas.  Os territórios indígenas deram lugar as fazendas de bois, plantações de milhos, soja, cana…  Mas em 1985 a Democracia devolveu ao povo o poder!    Os políticos eleitos com o voto do povo retornam loucos para representar legitimamente o povo brasileiro.  Corrupção, se torna o carro chefe e quadrilhas organizadas e legalizadas desviam verbas por todos os cantos deste Brasil!    Ai aparece um galã que se candidata a presidente para moralizar e acabar com os “Marajás” que ganham altos salários as custas do Povo!  O povo o elege e o aclama como o homem que tirará o País do caos da corrupção.  Na metade de seu mandato, é expulso da presidência pelos “Caras Pintadas”.  Agora somos menos de 300.000 indígenas espalhados e amordaçados por becos, vielas e restingas pelo deste Brasil.  Não temos muitas esperanças.  Mas ai aparecem as “Ongs” as pastorais, o Cimi, as missões evangélicas, as assembleias indígenas  associações indígenas, constituição de 1988, a imprensa internacional e achamos que vamos ter uma “Upgrade” porque agora temos também indígenas nas Universidades, Faculdades e cursos técnicos, indígenas com notebooks com internet, celulares, carros…   mas nada disso diminui os assassinatos de lideranças indígenas por todo o País, a ferro a fogo.  
Hoje segundo o ultimo senso, somos quase um milhão de indígenas presentes e todos os Estados e Distrito Federal, somando 302 povos sobreviventes, falando 180 línguas morando num País que empresta seu território para que os verdadeiros habitantes morem e vivam sua cultura, podendo ser expulsos a qualquer momento das terras onde seus ancestrais estão pela exploração ou interesse do País como se nos fossemos objetos inanimados sem qualquer vinculo com estas terras e com esta sociedade inventada a menos de 513 anos?
Como pode no sec. XXI uma “Nação” indígena inteira esta ameaçada de desaparecer por causas de uma meia dúzia de fazendeiros que se enriquece a custa da destruição da biodiversidade e massacra há anos os Indígenas Guarani-Kaiowá e as autoridades não tomam uma decisão a favor da vida.  O Brasil tem uma divida extrema para com os povos indígenas que moram nas terras emprestadas no Brasil, é um divida historia pelas violências causadas desde a invasão em 1500. 
Autoridades, o sangue indígena que derramaram não choramos mas por ele, mas choramos pelos que ainda derramam. 
Brasil, pinte sua cara e mostre que somos irmãos de sangue, vamos mostrar de onde vem o poder da democracia e vamos impedir o massacre do povo Guarani-Kaiowá e dos povos indígenas brasileiros.
Cristino Wapichana.  

31 de out. de 2012

Peixe e Gente no Ciência às 7 e meia

O Musa organiza exposição sobre a vida e a cultura dos índios Tukano e Tuyuka que habitam o Alto Rio Tiquié, no noroeste amazônico (Fotos: Juan Soler e Marcella Rufino).


Com o título de “Peixe & Gente no Alto Rio Negro: conhecimentos indígenas sobre a pesca”, o projeto Ciência às 7 e meia, do Museu da Amazônia/Musa leva no próximo dia 31 de outubro ao Teatro Direcional do Manauara Shopping, a cosmologia do povo Tukano que habita a região amazônica. Aloisio Cabalzar (ISA), Ennio Candotti (Musa), Tarcísio Barreto (Conhecedor Tukano) e Guilherme Tenório (Conhecedor Tuyuka) vão apresentar o que está sendo preparado para a exposição “Peixe e Gente”, a ser inaugurada no próximo mês, no Jardim Botânico Adolpho Ducke, na zona leste de Manaus.

      
   Fotos: Juan Gabriel Soler

A exposição “Peixe e Gente” vai abordar a cultura e as tradições do povo Tukano e ocupará cerca de 1000m2 do centro de visitação do Museu da Amazônia, na Reserva Florestal Adolpho Ducke (em duas tendas esticadas na floresta e um pavilhão). O objetivo é contribuir para a conservação das tradições e saberes indígenas, através do seu rico patrimônio material e imaterial, expresso em suas aldeias e cerimônias, cozinha e armadilhas de pesca, no alto rio Negro.

No acervo da exposição estão armadilhas de pesca (algumas gigantes, construídas por artesãos indígenas no próprio local da exposição), painéis ilustrativos sobre os principais mitos da cosmologia Tukano, relacionados com os peixes e ilustrados pelo artista indígena Feliciano Lana; painéis ilustrativos de espécies de peixes encontradas na região do alto rio Tiquié, além de uma cozinha tipicamente indígena, com artefatos tradicionais trazidos de várias comunidades do alto rio Negro.

   
Fotos: Marcella Rufino

A exposição é uma realização do Musa, com a parceria do Instituto Socioambiental (ISA). Aprovado pela Lei Rouanet, o projeto conta com o patrocínio da Bemol (Benchimol Irmão e Cia) e Sociedade Fogás Ltda. A curadoria é do antropólogo Aloisio Cabalzar, cenografia do artista plástico Zeca Nazaré, fotografias e documentários de Juan Gabriel Soler e conta com a participação do artista indígena Feliciano Lana e dos artesãos Tarcísio Borges Barreto (Tukano), Domingos Prado Marques (Tukano), Guilherme Pimentel Tenório (Tuyuka), José Pimentel (Tukano) e Luciano Barbosa (Makuna).
 
     
    Fotos: Juan gabriel Soler

Palestra: “Peixe & Gente no Alto Rio Negro: conhecimentos indígenas sobre a pesca"
Palestrante: Aloisio Cabalzar (ISA), Ennio Candotti (Musa), Tarcisio Barreto (Conhecedor Tukano) e Guilherme Tenório (Conhecedor Tuyuka)
Data: 31 de outubro de 2012
Hora: 19h30
Local: Teatro Direcional. Manauara Shopping - Av. Recife, 1300. Adrianópolis
Entrada Gratuita

TRÊS ESCOLAS INDÍGENAS DA REGIÃO AMAJARÍ PARTICIPARAM DO V INTERCULTURAL DAS ESCOLAS INDÍGENAS DO ENSINO MÉDIO


Três Escolas do Amajarí participaram do V Intercultural das Escolas do Ensino Médio “O Fruto do Nosso estudo e trabalho” Promovido pela Divisão Escolar Indígena- DIEI/SECD. Foram as Escolas Estaduais Indígenas Tuxaua Manoel Horácio- Comunidade Guariba, Tuxaua Raimundo Tenente- Comunidade Araçá e Santa Luzia- Comunidade Três Corações.

Esse Intercultural teve como objetivo apresentar, socializar e articular os trabalhos e as experiências das atividades e projetos desenvolvidos pelos os alunos e professores das Escolas do Ensino Médio Regular promovendo o intercâmbio, avaliando e propor melhorias na qualidade de ensino, para fortalecer e valorizar a cultura dos povos indígenas de Roraima. Participaram 23 escolas das regiões de Surumú, Serra da Lua, Serras, Taiano, Baixo Cotingo, São Marcos, Murupu, Raposa, Amajarí.

A Escola Estadual Indígena Santa Luzia apresentou o Projeto “Viva Natureza” tendo com linha unificadora é de preservar a natureza e cultivar mais plantas para que no futuro possamos ter plantas para produzir remédios medicinais caseiros, preservar espécies de plantas medicinais.
Escola Tuxaua Manoel Horácio apresentou o“Projeto Jovens Indígenas: Promovendo a Educação Ambiental” com o objetivo de incentivar a educação ambiental aos discentes para que compreenda a natureza complexa do meio ambiente natural e do meio ambiente criado pelo homem, resultante da integração de seus aspectos biológicos, físicos, sociais, econômicos e culturais.
Escola Estadual Tuxaua Raimundo Tenente teve como Titulo do Projeto “Leitura” esse projeto realizado pelos alunos sendo trabalho por áreas de conhecimento ciências sociais, comunição e arte, ciências da natureza, foram atividades realizadas em lugares sagrados da comunidade Araçá, também teve um aula de campo na Pedra Pintada e Tepequém. Com foco de preservar, conhecer e repassar as histórias contadas pelos ancestrais da comunidade.

O resultado positivo do Intercultural, no decorrer dos anos, em que foi realizado proporcionou a continuidade da implantação do ensino médio nas escolas que apresentaram demanda.
DADOS- Conforme dados do Censo Escolar (2011), comas novas implantações de Ensino Médio regula há 42 escolas 15.005, para DIEI (2012) há um total de 48 Escolas de Ensino Médio e 1.862 alunos.


Fonte: Divisão Escolar Indígena- DIEI/SECD


Escrito por: Monaliza Ribeiro <rmonalizanayara@yahoo.com.br> Profª. Da Escola Estadual Indígena Tx. Manoel Horácio- Comunidade Guariba.
http://creianp.blogspot.com.br/2012/10/tres-escolas-indigenas-da-regiao.html

27 de out. de 2012

CORTA ESSA DE SUICÍDIO!


José Ribamar Bessa Freire
28/10/2012 - Diário do Amazonas


Foi assim. No primeiro século da era cristã, os Guarani saíram da região amazônica, onde viviam, e caminharam em direção ao Cone Sul. Depois de longas andanças, ocuparam terras que hoje estão dentro de vários estados nacionais: Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia. Os vestígios arqueológicos e linguísticos que foram deixando ao longo do caminho permitiram que os pesquisadores reconstruíssem essa rota e estabelecessem datas prováveis do percurso feito.  
Dois mil anos depois, um italiano, nascido em 1948, em Toscana, atravessou o oceano Atlântico com sua família, veio para Porto Alegre, de lá para Curitiba, se naturalizou brasileiro e se instalou, finalmente, em Mato Grosso do Sul, onde encontrou os Guarani, que lá vivem há quase dois milênios. O italiano recém-chegado se tornou governador do Estado. Seu nome: André Puccinelli (PMDB - vixe, vixe).
A migração estrangeira ajudou a construir nosso país, quando conviveu em paz com os que aqui estavam há muitos séculos, sem atropelá-los. Muitos estrangeiros, honrados, trouxeram trabalho, riqueza e cultura e compartilharam o que tinham e o que produziam com o resto da sociedade que os acolheu. Ensinaram a aprenderam. Mudaram e foram mudados. Benditos estrangeiros que plasmaram a alma brasileira!  
No entanto, não foi isso o que sempre aconteceu em Mato Grosso do Sul. Lá, desde 1915, fazendeiros, pecuaristas e agronegociantes, quando chegaram, encontraram as terras ocupadas por índios. Consideraram as terras indígenas como "devolutas" e começaram a expulsar os que ali viviam, num processo que se acelerou nas últimas décadas. Foi aí que os invasores, representados hoje, no campo político, por André Puccinelli, colocaram seus documentos pra fora e, machistas, ordenaram autoritariamente:
- Deite que eu vou lhe usar!
Usaram a terra em proveito próprio, da mesma forma que o coronel Jesuíno, interpretado por José Wilker, usou a Sinhazinha na minissérie Gabriela: sem nenhum agrado, sem qualquer respeito. Com dose cavalar de brutalidade, desmataram, queimaram, exploraram os recursos naturais, abusaram dos agrotóxicos, colheram safras bilionárias de soja, cana e celulose, extraíram minério, poluíram rios e privatizaram a natureza para fins turísticos. Pensaram só neles, no lucro, e não na terra e na qualidade da vida, nem compartilharam com a sociedade, que ficou mais empobrecida.
Flor da terra
O resultado desastroso do uso da terra foi lamentado pelos líderes e professores Kaiowá em carta de 17 de março de 2007:
 - O fogo da morte passou no corpo da terra, secando suas veias. O ardume do fogo torra sua pele. A mata chora e depois morre. O veneno intoxica. O lixo sufoca. A pisada do boi magoa o solo. O trator revira a terra. Fora de nossas terras, ouvimos seu choro e sua morte sem termos como socorrer a Vida.  
Para os Guarani, o que aconteceu foi um estupro, ferindo de morte a sinhazinha natureza. A relação deles com a terra é amorosa, eles não se consideram donos da terra, mas parceiros dela. Ela é o tekoha, o lugar onde cultivam o modo de ser guarani, o nhanderekó. "Guardamos com a terra" - diz o kaiowá Tonico Benites - "um forte sentimento religioso de pertencimento ao território".
O professor guarani Marcos Moreira, quando foi meu aluno no curso de formação de professores, entrevistou o velho Alexandre Acosta, da aldeia de Cantagalo (RS) que, entre outras coisas, falou:
- Esta terra que pisamos é um ser vivo, é gente, é nosso irmão. Tem corpo, tem veias, tem sangue. É por isso que o Guarani respeita a terra, que é também um Guarani. O Guarani não polui a água, pois o rio é o sangue de um Karai. Esta terra tem vida, só que muita gente não percebe. É uma pessoa, tem alma. Quando um Guarani entra na mata e precisa cortar uma árvore, ele conversa com ela, pede licença, pois sabe que se trata de um ser vivo, de uma pessoa, que é nosso parente e está acima de nós.
Os líderes Kaiowá reforçam essa relação com a terra quando lembram, na carta citada, que o criador do mundo criou o povo Guarani para ter alguém que admirasse toda o esplendor da natureza."O nosso povo foi destinado em sua origem como humanidade a viver, usufruir e cuidar deste lugar, de modo recíproco e mútuo" - escreve o kaiowá Tonico Benites, doutorando em antropologia. "Por isso, nós somos a flor da terra, como falamos em nossa língua: Yvy Poty" - completam os líderes Kaiowá.
Se a terra é um parente, a relação com ela deve ser de troca equilibrada, de solidariedade. É como a mãe que dá o leite para o filho. Ela dá, sem pensar em cobrar. Ela não cobra nada, mas socialmente espera que um dia, se precisar, o filho vai retribuir.
"Tudo isso é frescura" - dizem os fazendeiros e pecuaristas que pensam como o coronel Jesuíno: a terra é pra ser usada. E ponto final. Portanto, o conflito não é apenas fundiário, mas cultural, com proporções tão graves que a vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat, considera essa como "a maior tragédia conhecida na história indígena em todo o mundo". É que os Guarani decidiram defender a terra ferida e para isso realizaram um movimento de ocupação pacífica do território tradicional localizado à margem de cinco rios: Brilhantes, Dourados, Apa, Iguatemi e Hovy.
Apenas uma pequena parte do antigo território, que lhes permita sobreviver dignamente, é reivindicada. É o caso da comunidade Pyelito Kue-Mbarakay, no extremo sul do Estado, onde vivem 170 Kaiowá, dentro da fazenda Cambará, às margens do rio Hovy, município de Iguatemi (MS). A comunidade está cercado por pistoleiros e lá já ocorreram recentemente 4 mortes, duas por espancamento e tortura dos jagunços e duas por suicídio.
Somos Kaiowá       
Um juiz federal, Sergio Henrique Bonacheia, determinou, em setembro último, a expulsão dos índios. Ele afirmou que não interessa "se as terras em litígio são ou foram tradicionalmente ocupadas pelos índios ou se o título dominial do autor é ou foi formado de maneira ilegítima". Os índios vão ter que sair - decidiu o magistrado.
O Ministério Público Federal e a Funai recorreram ao Tribunal Regional Federal contra tal decisão. Os índios se rebelaram, escreveram uma carta anunciando que dessa forma o juiz está decretando a morte coletiva, que ele  pode enviar os tratores para cavar um grande buraco e enterrar os corpos de todos eles: 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças,  que eles ali ficam, como um ato de resistência, para morrer na terra onde estão enterrados seus avós.
O suicídio coletivo - assim a carta foi interpretada - teve enorme difusão nas redes sociais e ampla repercussão internacional, "com o silêncio aterrador" da mídia nacional, como lembrou Bob Fernandes, autor de um dos três artigos esclarecedores e informativos. Os outros dois foram de Eliane Brum e de Tonico Benites.
Construiu-se rapidamente nas redes sociais uma corrente de solidariedade, com sugestões para a realização de atos de protestos em muitas cidades brasileiras. "Nós todos somos Kaiowá" - disseram, parodiando um slogan que ficou célebre em maio de 1968, na França: "Nous sommes tous des juifs allemands".  Um desses atos, marcado para hoje, domingo, dia 28, será no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, onde está instalada uma exposição sobre a vida da atriz Regina Duarte, proprietária de uma fazenda em MS e considerada porta-voz dos fazendeiros, por uma declaração infeliz que deu.
Diante da gravidade dos fatos, o governo federal convocou reunião de emergência para a próxima segunda-feira, com a participação de vários órgãos governamentais. A possibilidade de se efetivar o suicídio coletivo dos Kayowá se apoia em dados oficiais do Ministério da Saúde: nos últimos onze anos, entre 2.000 e 2011, ocorreram 555 suicídios, uma das taxas mais altas do mundo.
Se a tragédia acontecer, uma pergunta vai ter que ser respondida: suicídio coletivo? Será mesmo? A ideia de suicídio é, num certo sentido muito cômoda, porque isenta de culpa a terceiros. Mas se você é levado por alguém a se matar, trata-se de suicídio ou de uma forma de homicídio? O artigo 122 do Código Penal Brasileiro estabelece pena de reclusão para o agente que, através de ato, induz ou instiga alguém a se suicidar ou presta-lhe auxílio para que o faça. Quem pode ser incriminado neste caso?
A pergunta deve ser feita ao governador Puccinelli, implicado pela Operação Uragano da Polícia Federal num esquema ilegal de pagamento de propinas a deputados e desembargadores, que em maio de 2010, durante a abertura da Expoagro, em Dourados, incitou os fazendeiros contra os índios. A pergunta pode ser repassada também à senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, que em artigo, ontem, na Folha de São Paulo, teve o descaro de escrever, com certa dose de cinismo e de deboche:
- "Se a Funai pensa, por exemplo, que são necessárias mais terras para os indígenas pela ocorrência da explosão demográfica em certa região, nada mais fácil do que comprar terras e distribuí-las".
O discurso da senadora  - convenhamos - é transparente, porque evidencia a relação exclusivamente mercantil que têm com a terra, ela e aqueles que ela representa e da qual é porta-voz. Mostra ainda que ela não é capaz de entender a relação amorosa e religiosa dos Guarani com a terra. O coronel Jesuíno, certamente, assinaria embaixo de tal discurso.

http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=1004

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...